É justo ler o pensamento das pessoas?
Os avanços em termos de leitura de imagens cerebrais e as aplicações que ela proporciona - por exemplo, na detecção de mentiras ou na avaliação do perfil de um candidato a emprego - abrem espaço para uma disciplina típica do século 21: a neuroética
Por Eduardo Araia
Revista Planeta, Edição 426
Quem pode garantir qual finalidade será dada a uma tecnologia? Seu bom ou mau uso é um dilema tão antigo quanto a própria humanidade. Numa palestra em São Paulo nos anos 1990, o psiquiatra Stanislav Grof, um dos pais da psicologia transpessoal, lembrou que a mesma lâmina cortante do bisturi pode matar ou salvar vidas. Da mesma forma, quando falam de magia, os esotéricos costumam afirmar que ela é uma só. É chamada de magia branca quando se destina à prática do bem, é magia negra quando se destina à prática do mal. Tanto no caso do bisturi quanto no da magia, o que vai caracterizar sua destinação positiva ou negativa, portanto, são as leis, a filosofia e a ética – e estas continuam a chegar sempre depois que as novidades começaram a ser usadas.
Há alguns anos, a velocidade das descobertas em biotecnologia e as ameaças nela contidas – como a de uma sociedade que discriminasse a partir do patrimônio genético do indivíduo, tema do filme Gattaca – Experiência Genética - impulsionaram a bioética, a ética ligada às ciências da vida. A seguir, o progresso dos exames do cérebro por máquinas de ressonância magnética funcional por imagens (MRI, na sigla em inglês) deu origem à sua parenta próxima, a neuroética. Definida pelo neurocientista Roberto Lent, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como “a interface entre a ética, a neurociência e as neurotecnologias”, a neuroética já nasceu com muito trabalho pela frente.
A nova disciplina fez sua estréia em uma conferência realizada nos Estados Unidos em 2002. Depois disso, as universidades de Stanford e da Pensilvânia (ambas nos EUA) criaram os primeiros centros de pesquisa dedicados ao tema naquele país. A crescente importância da área levou um grupo de psicólogos, advogados e filósofos norte-americanos a fundar no ano passado a Neuroethics Society.
Como de hábito, as pesquisas na leitura de imagens do cérebro começaram com as melhores intenções. A meta era descobrir qual área cerebral estava lesionada e, se possível, testar alternativas para solucionar ou amenizar o problema. Esse é o caminho trilhado, por exemplo, por pesquisas que buscam devolver movimentos a pessoas paralisadas ou permitir que se escreva num computador a partir de comandos cerebrais. Mas não demorou para outras possibilidades serem vislumbradas por empreendedores atentos.
Em fevereiro, neurocientistas do Instituto Max Planck de Cognição Humana e Ciências do Cérebro, de Leipzig (Alemanha), divulgaram que, por meio da MRI, não apenas localizaram regiões do cérebro na qual surgem determinados pensamentos, mas também puderam analisá-las e verificar se os pensamentos estavam ocorrendo. Eles detectaram com acerto 70% dos casos nos quais era solicitado a um voluntário que adicionasse ou subtraísse dois números que piscavam numa tela.
NA OCASIÃO, o autor do relatório, John Dylan-Haynes, comparou o avanço obtido à situação de um homem que, de mero localizador de livros, passa a poder ler seu conteúdo. Ele ressalvou que ainda está longe o dia em que um aparelho lerá com facilidade pensamentos aleatórios. “Mas o que podemos fazer é ler algumas coisas bem úteis para aplicações práticas, tais como intenções, atitudes ou estados emocionais simples”, disse. “O que estamos descobrindo é que agora somos capazes de ler o cérebro em situações de sim-ou-não.”
Embora a máquina sofisticada de leitura cerebral ainda seja um sonho, é exatamente a possibilidade de ela existir que assusta os estudiosos da neuroética. Dylan-Haynes ressaltou que entre cinco e dez anos já poderiam surgir aplicações simples desse processo, como a leitura da atitude de um candidato a emprego numa entrevista ou do teste das preferências dos consumidores. Para outras empresas, no entanto, esse período pode ser encurtado.
"EMBORA A MÁQUINA DE LEITURA CEREBRAL AINDA SEJA UM SONHO, É A POSSIBILIDADE DE ELA EXISTIR QUE ASSUSTA"
A norte-americana Cephos Corporation deverá ter dentro de poucos meses um detector de mentiras 90% confiável, assegura seu diretor-executivo, Steven Laken. Segundo ele, o produto teria clientes certos nas comunidades de inteligência. Novidades também foram prometidas para breve em termos de mensurar a compatibilidade de candidatos a sócios, a honestidade de cônjuges ou a escolha de determinada marca de produto por um consumidor. Essa rapidez inquieta Judy Illes, diretora do programa de neuroética da Universidade de Stanford. “Não é tão futurístico imaginar um empregador capaz de testar quem seria um bom integrante de equipe, um líder ou um seguidor”, ela afirma. “O potencial de abuso dessa tecnologia é imenso.”
Como as leis ainda não estão preparadas para as situações abertas pela leitura do cérebro, as dúvidas vão brotando. Em princípio, parece abusivo fixar eletrodos no crânio de alguém contra sua vontade – mas e se um promotor exigir que um acusado passe por um detector de mentiras que use essa tecnologia? Um candidato a um emprego numa empresa importante se recusaria a passar por uma leitura cerebral se ela fosse pré-requisito para o cargo? Pais poderiam fazer testes desse gênero para saber se seus filhos estão envolvidos com drogas?
Além disso, o entusiasmo com a nova tecnologia pode ocultar erros importantes. Em uma recente entrevista à revista Veja, Roberto Lent exemplificou essa situação com o detector de mentiras: segundo ele, nem mesmo um aparelho que leia a mente teria o êxito de 100%, necessário para se garantir que uma pessoa é inocente ou culpada. “Injustiças terríveis podem ser cometidas se esse método for entronizado como infalível”, observou.
"INJUSTIÇAS TERRÍVEIS PODEM SER COMETIDAS SE ESSE MÉTODO FOR ENTRONIZADO COMO INFALÍVEL"
Tal como enxadristas, profissionais como Judy Illes e sua equipe procuram prever os próximos passos na área para alertar os cientistas sobre as implicações envolvidas. “Tentamos identificar esses focos de interesse e ajudar os pesquisadores a ficar atentos sobre como o trabalho deles pode ser usado, inclusive para propósitos nefastos”, comenta ela.
DE SEU LADO, algumas empresas da área prometem uma conduta eticamente irrepreensível. A Human Bionics não só contratou Judy para prestar consultoria como produziu um denso manual de política ética, que mostra o que seus funcionários podem extrair das imagens e quem pode acessá-las sem autorização judicial.
Mas não adianta só contar com atos isolados de boa vontade. É preciso definir uma política nessa área, que virá apenas a partir de um debate multidisciplinar de urgência indiscutível. Felizmente, em países como os Estados Unidos esse trabalho parece já ter saído do zero. Com a adequada discussão do tema, pode-se chegar a resultados animadores, diz Alan Leshner, dirigente da American Association for the Advancement of Science: “(...) assim, a ciência pode avançar e a sociedade pode se beneficiar do tremendo potencial de ser capaz de olhar dentro do cérebro de um indivíduo vivo, que respira e se comporta de forma única, e observar a sua mente em ação.”
Em geral, as sociedades ainda rejeitam as demonstrações de diversidade sexual. Mas essa característica humana se torna cada vez mais visível, e aceitá-la já deixou de ser uma luta exclusiva de minorias como gays e lésbicas
Por Ricardo Kelmer
Revista Planeta, Edição 423
Somos todos humanos, eu, você, os outros. Somos todos Homo sapiens. No entanto, somos diversos, você, eu e todos os outros, pois temos nossas culturas, religiões e histórias pessoais diferentes, o corpo, a cor da pele, a língua, o modo de entender a vida... Não há dois humanos exatamente iguais. E jamais houve. Você já pensou nisso?
A diversidade é uma de nossas maiores riquezas. Foi ela que possibilitou à espécie experimentar-se de infinitas formas pela longa e difícil jornada da evolução. A diversidade biológico-cultural, ao contrário das teorias que defendem pureza racial e coisas do tipo, é que pode nos oferecer mais e melhores possibilidades de aperfeiçoamento. Se obedecêssemos todos, automaticamente, a um só modo de ser e compreender a vida, nossos horizontes evolutivos seriam bem mais limitados.
E na área da sexualidade? Sexualmente também somos diversos. Pode soar exagerado, mas pense bem: é impossível haver dois seres humanos exatamente com a mesma sexualidade, a mesmíssima forma de viver as relações pessoais e o desejo sexual. Existem humanos homens e humanos mulheres – mas quando o assunto é sexualidade, as possibilidades que se formam a partir daí são tantas que não daria para catalogar com exatidão todas as variantes da sexualidade humana.
A maioria das sociedades atuais, porém, rejeita a natureza diversa da sexualidade de nossa espécie. Aliás, elas não só rejeitam como estabelecem um padrão de normalidade e punem quem não obedece a ele. Foi assim, tentando padronizar artificialmente o que por natureza é amplo e diverso, que essas sociedades construíram uma triste história de intolerância, preconceito e violência, não apenas contra quem não se enquadra no padrão, mas contra a própria espécie humana.
A DISCRIMINAÇÃO e a violência contra pessoas por causa de sua orientação sexual as levam, freqüentemente, a uma vida semiclandestina, regida pelo medo constante de ser descobertas e incompreendidas. Para não serem discriminadas, essas pessoas caem em outro tipo de sofrimento, tão ou mais cruel: a dor de não poder ser o que se é. O que é pior: sofrer abertamente a discriminação ou viver uma vida de mentira?
Talvez você, leitor, seja uma pessoa perfeitamente encaixada no modelo padrão de sexualidade que nossa sociedade estabeleceu, o modelo heterossexual cem por cento. Se é o seu caso, você não sofre discriminação por sua sexualidade, está livre para ser e expressar o que é. Que bom! Mas se você está fora do padrão, sabe muito bem qual o preço que tem de pagar para ser o que é. De qualquer modo, em ambos os casos, encaixando-se ou não em padrões, você tem a sua própria sexualidade, e ela, em sua natureza mais profunda, é só sua, é única, e ninguém mais tem uma igual, pois ninguém mais tem as mesmas preferências, no mesmo grau, do mesmo jeito. Por que então discriminar, se todos nós, por trás dos nossos crachás sociais, temos nossas íntimas particularidades em relação aos padrões sexuais estabelecidos?
A sociedade discrimina o diferente porque é assim que ela busca manter o controle sobre seus indivíduos. Talvez seja um forma de estratégia natural de organização e sobrevivência dos corpos sociais, sim, pois é mais fácil controlar o que se comporta igual. Mas o custo disso é a anulação do próprio indivíduo, que é estimulado desde o início a seguir os mesmos passos de todos, como numa manada.
FELIZMENTE, PORÉM, trazemos em nós, cada um de nós, o impulso potencial para a auto-realização, ou seja, para ser quem verdadeiramente somos em nossa essência, em nossa natureza mais legítima, em vez de obedecer cegamente aos padrões impostos, que nos querem indiferenciados. Os que seguem o impulso da auto-realização acabam se diferenciando do resto da manada e, de fato, pagam caro por construir seu próprio caminho – mas são justamente essas pessoas que transformam a sociedade, apresentando- lhe os novos valores.
Atualmente, a humanidade vive a intensificação desse processo de transformação do comportamento coletivo em vários aspectos, como nos movimentos feministas e na luta anti-racismo. No campo da sexualidade também não seria diferente: hoje as sociedades se vêem na obrigação de discutir o tal modelo de padronização da sexualidade, mesmo sendo um tema incômodo, pois é cada vez mais difícil e inviável esconder o fato de que somos, sempre fomos, sexualmente diversos.
Quando me convidaram para participar, como jornalista, da edição inicial do For Rainbow, o festival de cinema da diversidade sexual, que aconteceu em Fortaleza em julho de 2007, tive dúvidas se a produção do evento conseguiria, de fato, tirar a idéia do papel e realizá-la. O Ceará é um Estado que, além de muito pobre, tem reconhecida tradição machista, e onde, segundo dados recentes, a homofobia entre escolares adolescentes é uma das maiores do Brasil. Mas o evento aconteceu, sem contestações, com apoio da mídia. E voltei de lá esperançoso, não somente pelo festival, mas também pelo ótimo exemplo que a capital cearense está dando ao País com a implementação de políticas públicas de garantia ao livre exercício da sexualidade e de combate ao preconceito. Fica cada vez mais claro que o direito à própria sexualidade é uma conquista da democracia e que políticos e governantes serão cada vez mais cobrados em relação a isso.
O For Rainbow de Fortaleza não está só. Vários outros eventos são criados a cada dia no mundo como forma de expressão da sexualidade humana diversa. As passeatas do orgulho gay, de início tímidas, vão deixando de ser eventos representativos de uma minoria sexual para se tornar grandes festas de todos, nas quais se celebram a alegria e a liberdade de poder ser o que se é e de viver em harmonia com o diferente. Como a grande mídia já não pode mais fingir que tais coisas não existem, o mundo fica cada vez mais ciente do que sempre foi óbvio – e, assim, a natureza diversa de nossa sexualidade deixa de ser um tabu e passa a ser algo natural, para nós e, principalmente, para as novas gerações.
A psicologia do inconsciente nos ensina que ninguém vive plenamente sua própria vida enquanto não reconhece o que na verdade é. Mas ela também nos diz que esse reconhecer-se sempre traz alguma crise. São verdades psicológicas que muitos já entendem, mas o que muitos ainda não percebem é que elas valem tanto para o indivíduo como para a espécie como um todo. Neste momento histórico, a humanidade se debate justamente nas crises que vêm desse necessário processo de auto-aceitação. Com a aproximação das culturas e a facilidade da comunicação e dos transportes, a espécie passou a se conhecer num nível jamais experimentado – e é normal que isso cause medo e insegurança. E conflitos também, pois se somos educados entendendo que nossa cultura é a melhor, provavelmente o contato inicial com outra cultura não será muito amistoso. A aproximação do diferente às vezes assusta, mas só assim podemos perceber que o que antes julgávamos feio, errado e perigoso é apenas diferente.
Atualmente, todas as pessoas estão sendo levadas a reconhecer que sua cultura não é a melhor, que sua religião é apenas uma entre tantas e seus valores, antes absolutos, tornam-se relativos diante de outros valores. A atual crise, portanto, era mesmo inevitável. E é uma crise de percepção: estamos nos percebendo de modo diferente ao que sempre fizemos. Mas há uma boa notícia, e ela também vem da psicologia: num segundo momento, o conflito dá lugar à assimilação do novo, pois o indivíduo aceita o que descobriu sobre si mesmo como parte legítima de sua personalidade e a integra à sua auto-identidade. Que bela ironia... A crise de autopercepção que tanto dói nos leva, no final, anos tornarmos mais equilibrados, coesos e inteiros.
Agora, a luta pela legitimação da diversidade sexual como característica humana não é mais apenas uma luta de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros. Esse reconhecimento do que sempre fomos é um desafio de todos. De todos, sim, pois até mesmo os que defendem os tais padrões sexuais e negam a diversidade também pagam seu preço, já que têm cada vez mais de conviver com o diferente que tanto lhes incomoda.
É, não está sendo fácil para nenhum dos lados. Mas já passamos pela fase mais difícil. A humanidade, a cada dia, está mais transparente e verdadeira para com ela própria. E isso é uma ótima notícia.
A era do emprego se encerra. Começa a era da prestação de serviços e dos trabalhadores pluriativos
Por Luis Pellegrini
Revista Planeta, Edição 431
Como nossos filhos trabalharão amanhã? Mais do que nunca, esta pergunta ocupa os corações e mentes de todos os pais e mães empenhados na preparação de seus filhos prestes a se lançar na vida profissional. A preocupação é justa: as mudanças que estão ocorrendo no mercado de trabalho no mundo não configuram um panorama de simples transformações, mas sim de uma verdadeira revolução.
"Já hoje, há muito mais gente correndo atrás de um bom padeiro do que de um bom politécnico" |
O francês Thierry Gaudin, fundador e presidente do Foresight 2100, uma das mais importantes organizações mundiais de prospecção de tendências econômicas e socioculturais, afirma que o modelo de organização do trabalho desenvolvido ao longo do século 20 passará por um processo radical de transformação. Tudo será diferente para as próximas gerações. "Para começar", diz Gaudin, "já agora, em todos os países desenvolvidos, observamos um grande número de pessoas evoluírem para: um retorno ao campo; o trabalho a distância, como a tecnologia permite cada vez mais; organizar a vida a partir de uma renda modesta; desempenhar algum trabalho mas, ao mesmo tempo, cultivar um pomar no fundo do quintal; reformar a casa com suas próprias mãos; viver a partir de pequenos serviços informais; ganhar a vida desempenhando funções e tarefas temporárias".
Essa descrição de um mundo do trabalho completamente diverso do até agora vigente, no qual ainda pontificam advogados, médicos, engenheiros, técnicos em informática, empresários, especialistas em aplicações financeiras e coisas do gênero, é mesmo surpreendente. Nas últimas décadas, toda a cultura ocidental, através da mídia e da educação, tentou nos persuadir de que o objetivo maior da existência era a ocupação de um posto de trabalho no seio de uma multinacional. E agora chega alguém para nos dizer que o futuro não mais pertence aos especialistas das modernas tecnologias, mas sim aos que, além de saber mexer num computador e surfar na internet, são pluriativos e souberam conquistar um bom know-how de ofícios considerados rudimentares, como cultivar a terra, trabalhar a madeira, a pedra, refazer um telhado, instalar painéis solares!
As visões de Gaudin vão ainda mais longe. Na questão dos salários, por exemplo. A prestação de serviços contra uma remuneração, bem como o dinheiro, não estão destinados a desaparecer amanhã. Mas a idéia de um assalariado colocado sob a autoridade de um patrão durante oito horas por dia está destinada a sumir. O modelo ainda vigente de uma semana de trabalho de 44 horas e de um emprego formal está superado. Mas sem essa estrutura organizativa, como financiar os sistemas de assistência social, as aposentadorias, os saláriosdesemprego, as greves? Gaudin sugere, como um primeiro passo para a solução, a simplificação dos processos administrativos e o estímulo às microorganizações de menos de dez pessoas. "É necessário parar de acreditar nas informações oficiais que afirmam, por exemplo, que o crescimento cria empregos. Isso é falso. A transformação atual do sistema técnico nos faz passar da civilização industrial para a civilização cognitiva", diz ele.
AS PROSPECÇÕES DO Foresight 2100 apontam a década entre 2010 e 2020 como o período crucial dessas transformações. Os estudos revelam que estamos encerrando um ciclo: metade da espécie humana vive agora num meio urbano, e a maior parte do consumo energético acontece nas cidades (entre 70 e 80%). Mas já é possível imaginar uma adaptação urbana, ou de zonas rurais urbanizadas, mais autônoma e pluriativa. Muitos cidadãos já são pluriativos. Nesse sentido, Gaudin lembra um ponto crucial: os novos sistemas de comunicação que permitem, por exemplo, o trabalho a distância ainda não produziram os seus efeitos sobre a estruturação de territórios e a repartição entre cidade e campo. Essas conseqüências se farão sentir na próxima década: as pessoas irão fazer novas escolhas quanto à maneira de organizar e equilibrar suas vidas, de desfrutar do seu tempo livre, de fazer a trouxa e partir quando sentir necessidade disso, de pôr termo à corrida desabalada em direção ao sucesso. Essa é uma postura que já se observa num número crescente de pessoas.
Quais são as causas dessa revolução no mundo do trabalho? Em primeiro lugar, segundo as pesquisas, o progresso técnico e a globalização. Hoje, em todas as áreas, produzimos muito mais com menos trabalho. Existem, no entanto, alguns limites: setores como as indústrias têxtil e alimentar, que utilizam matérias-primas "leves", de tratamento mais delicado, são mais refratários à mecanização. Além disso, num curtíssimo tempo, boa parte delas foi transferida para países emergentes como a China e a Índia, onde a mão-deobra é menos cara. Nos dois casos, o resultado é o mesmo: no mundo ocidental, as grandes empresas não param de descartar seus empregados.
A globalização da economia de mercado exportou o modelo ocidental de trabalho para esses e outros países emergentes, os quais exploram hoje sua força de trabalho de maneira quase escravagista, com o objetivo de conquistar uma revanche econômica sobre os países do Ocidente. Mas isso, para os especialistas, não durará muito tempo. Na China, já pode ser verificado um número crescente de manifestações de protesto, em geral reprimidas com extrema violência. O que é certo é que, também nesses países, os ofícios que podem ser mecanizados serão fatalmente desempenhados por robôs. "Se acrescentarmos a tudo isso os efeitos do aquecimento global", explica Gaudin, "que não permitirá que a produção cresça a níveis delirantes, compreenderemos que será necessário prestar muita atenção às conseqüências globais".
AS CONSEQÜÊNCIAS desses fatores sobre o trabalho já podem ser verificadas. O emprego se torna cada vez menos freqüente e mais precário, até mesmo para as profissões mais bem qualificadas. É comum, hoje, consultores profissionais aconselharem a seus clientes: "Procurem trabalho, não procurem emprego." Na maior parte dos países ocidentais, um número cada vez maior de engenheiros trabalha em projetos temporários, que podem durar um, dois ou três anos, e após esse período são demitidos. Então, que faremos das pessoas que vivem essa situação ou que vêem seus parentes vivê-la? Elas se dirão: "Atenção, não podemos mais contar com um empregador, é preciso se virar por nossa conta, diversificar nossas possibilidades de entradas financeiras." Essa é a razão pela qual o mundo do trabalho de nossos filhos e netos será aquele desenhado no início deste texto por Thierry Gaudin.
E em relação aos jovens nos quais os pais e a escola incutiram o desejo de segurança, de carreira estável, a convicção de que a melhor e mais segura profissão é a de funcionário público? Gaudin responde que a maior parte deles estará condenada à decepção: "Os humanos são, como quase todos os primatas, animais tribais. No passado, pertencíamos a uma tribo por nascimento; hoje, a empresa tomou o lugar da tribo. Mas como ser fiel a um patrão infiel? O modelo da empresa 'patriarcal' se quebrou." Evidentemente, uma parte da população não conseguirá administrar as exigências de uma postura profissional "diversificada", e necessitará de um sistema de trabalho mais enquadrado.
Felizmente, para esses, os grandes empreendimentos estruturais, em que os Estados continuarão a investir para amenizar as crises, permitirão a colocação de um certo número de pessoas que não conseguem se adaptar à nova economia "leve", ou que, por razões psicológicas, precisam de um emprego para se sentir seguras. Mas para os outros (que serão a maioria), e graças às novas tecnologias, a solução passará pela multiassociação, as conexões múltiplas, outras formas de organização baseadas na amizade, na proximidade física ou, via internet, na proximidade virtual.
A ligação não será mais jurídica, para tornar-se informal. Isso já pode ser observado em várias organizações: o chefe não é um líder à antiga, mas sim um organizador; as pessoas funcionam em "socioanálise", ou seja, juntas elas analisam suficientemente bem uma situação até que cada um dos membros saiba o que deve fazer, sem ser preciso que ordens lhe sejam dadas. As pessoas de uma equipe não mais funcionarão a partir de relações de força ou de influência, e sim pelo esclarecimento.
Nesse novo contexto do mundo do trabalho, como ficará a questão crucial da "realização de si mesmo"? Para Gaudin, há uma formidável ambigüidade no modo como utilizamos a palavra trabalho. Ela implica, ao mesmo tempo, a idéia de esforço, de emprego, e de realização de si. "Todo trabalho, inclusive aquele sobre si mesmo, requer perseverança e disciplina." É preciso trabalho para se desenvolver um talento pessoal, para se praticar uma atividade artística ou esportiva, ou até mesmo para se praticar ioga! Por outro lado, nem todo emprego possibilita uma realização de si mesmo.
NO PLANO da consciência coletiva, uma nova filosofia começa a eclodir. Cada vez mais, ela deverá nortear todas as atividades humanas, inclusive o mundo do trabalho. É a idéia de que a espécie humana é apenas uma entre muitas outras espécies, mas o que a diferencia é a sua posição de guardiã do ecossistema. Esse papel é absolutamente vital, sobretudo agora, quando a natureza é cada vez mais uma "tecnonatureza" em boa parte modelada pela mão do homem.
Quanto à preparação de nossas crianças para esse futuro que já bate às portas, ela começa em casa e na escola. Até agora, como a escola era formatada para preparar as pessoas a empregos que não mais existem, todas as coisas essenciais eram aprendidas fora da escola, no mundo exterior. A nova escola deverá, é claro, proporcionar aos alunos os conhecimentos básicos para eles poderem ter acesso aos resultados da ciência e da cultura. Mas deverá também lhes dar as ferramentas que possibilitarão o desempenho de um mínimo de atividade artística, para que cada um deles possa exprimir sua própria personalidade. Será também necessário ensinar a eles o que é e como funciona a natureza, suas leis, os animais e as plantas, bem como o know-how básico de várias técnicas práticas. Como lembra Gaudin, uma coisa é certa: já hoje, há muito mais gente correndo atrás de um bom padeiro do que de um bom politécnico!
PARA SABER MAIS
www.2100.org
www.odisseyofthefuture.net
http://www.foresightinternational.com.au/
BIBLIOGRAFIA
Economia Cognitiva, Thierry Gaudin, Ed. Beca.
La Prospective, Thierry Gaudin, Éditions Puf.
Por sua beleza, seu perfume e grande variedade de espécies, as orquídeas sempre fascinaram os seres humanos. Descobriu-se agora que elas existem há 85 milhões de anos e estão entre as mais velhas plantas do planeta
Por Veridiana Franco
Revista Planeta - Edição 424
Seduzidos pela beleza natural das orquídeas, botânicos e floristas sempre souberam que existe algo muito especial nessas top models do mundo das plantas. Agora, a história dessa vedete floral terá de ser reescrita: novas descobertas sugerem que as orquídeas surgiram quando os dinossauros ainda percorriam a superfície do planeta - muito antes do que se acreditava, portanto. Investigando na República Dominicana, uma equipe de cientistas encontrou, perfeitamente preservados no interior de uma pedra de âmbar, grãos do pólen de uma orquídea grudados nas asas de uma abelha de 20 milhões de anos.
Até então, os botânicos especializados em história das plantas eram obrigados a basear os seus cálculos em alguns poucos exemplares fossilizados na tentativa de detectar a origem dessas plantas, mas a descoberta, recém- publicada pela revista científica Nature, sugere que as orquídeas surgiram em tempos muito remotos, mais especificamente há 85 milhões de anos.
A família das orchidaceae, ou orquídeas, foi batizada a partir da palavra grega orchis, que significa testículos, uma referência às sugestivas raízes em forma de bulbos que a planta possui. As orchis apareceram pela primeira vez num livro de história natural escrito pelo grego Teofrastos, o "pai da botânica". Essa família é a maior e mais diversificada de todo o universo das plantas florais, com mais de 25 mil espécies observadas até agora. A cada ano, cerca de 300 novas espécies são acrescentadas à lista, e alguns cientistas estimam que mais de cinco mil novas orquídeas ainda não foram descobertas. Mais de 100 mil orquídeas híbridas já foram cultivadas por especialistas em floricultura.
Alguns cientistas estimam que mais de CINCO MIL NOVAS orquídeas ainda não foram DESCOBERTAS
As orquídeas estão divididas em grupos de acordo com o modo pelo qual obtêm seus nutrientes. Muitas são epífitas perenes, que fixam suas raízes em outras plantas, quase sempre em árvores. As orquídeas litófitas crescem sobre rochas, tirando o seu sustento do ar, da chuva e inclusive dos seus próprios tecidos mortos. Existem também as orquídeas terrestres, que crescem na terra.
Embora possam parecer frágeis, as orquídeas são muito resistentes e evoluíram para viver em todos os habitats, com exceção da água e dos desertos, e em todos os continentes, com exceção da Antártica. A Schomburgkia tibicinis, por exemplo, é uma litófita cujas flores possuem caules que podem atingir três metros de altura, de modo que possam atrair agentes polinizadores.
Essa orquídea também hospeda exércitos de formigas no interior oco de seus bulbos. Esses insetos, em retribuição, defendem a planta contra outros insetos herbívoros e pragas que se nutrem de suas folhas. A espécie australiana Rhizanthella gardneri é fertilizada no subsolo, onde ela vive e floresce, sem nunca conhecer a luz do dia.
ALGUMAS ORQUÍDEAS são fertilizadas por pássaros ou morcegos, mas a grande maioria - precisamente 86% delas - é polinizada por insetos. A Cymbidium ostenta uma mancha amarela que parece oferecer alguns tentadores bocados de pólen às abelhas polinizadoras. Quando elas chegam e tentam mastigar a isca decorativa, a orquídea deposita o pólen real nas costas do inseto.
A orquídea erva-mosca (Ophrys bombyliflora) evoluiu de modo a parecer e a ter o cheiro de uma abelha fêmea, a tal ponto que os machos tentam copular com ela. Não só abelhas MEIO AMBIENTE e botânicos foram seduzidos pela orquídea. Os pássaros-jardineiro machos da Nova Guiné decoram a entrada dos seus ninhos com flores de orquídea.
Os antigos chineses foram dos primeiros a utilizar orquídeas na medicina. Eles as consideravam as mais aristocráticas dentre as plantas, e seu perfume simboliza virtude e sabedoria. O filósofo Confúcio disse certa vez que "ligar-se a uma pessoa superior é como entrar em um jardim de orquídeas". Escritos do inglês John Parkinson, de 1640, revelam que as orquídeas estavam entre as drogas vendidas em Londres (Inglaterra) para a cura de febres, inchaços e feridas.
Durante muito tempo, acreditou-se também que as orquídeas possuíam poderes afrodisíacos. Um antigo filósofo grego afirmava que as raízes terrestres de uma espécie, batizada com o nome do deus da fertilidade Príapo, possibilitavam ao homem ter até 70 relações sexuais consecutivas. Influenciados por essa propaganda certamente bastante enganosa, libertinos otimistas da época quase levaram a planta à extinção.
Charles Darwin, o teórico evolucionista e grande entusiasta das orquídeas, foi ridicularizado pelo seu colega naturalista Thomas Huxley quando descreveu corretamente como a espécie Catasetum saccatum lança o seu saco de pólen viscoso na direção dos insetos. Muitos outros também duvidaram quando ele predisse a existência de uma mariposa com uma tromba longa o bastante para penetrar os 30 centímetros do canal que conduz ao reservatório de néctar da Angraecum sesquipedale (também conhecida como "Orquídea de Darwin"), que é impenetrável para outros insetos. Vinte anos mais tarde, cientistas descobriram a mariposa-falcão (Manduca sexta), cuja tromba tem anatomia perfeita para a função.
Comerciantes e colecionadores de orquídeas gastam milhões todos os anos na aquisição de espécies exóticas e estima-se que globalmente o volume de negócios com orquídeas movimente cerca de US$ 1 bilhão por ano. O maior pagamento já efetuado pela compra de uma única planta foi de 1.500 libras esterlinas, em 1890 - o equivalente ao valor atualizado de 100 mil libras esterlinas. Nos leilões de flores realizados na Holanda, os compradores movimentam em torno de 37 milhões de libras esterlinas por ano, apenas para orquídeas cultivadas. EM VÁRIOS PAÍSES da Europa, sobretudo na Inglaterra, as orquídeas são as flores para decoração mais populares. Muitas orquídeas cortadas, que podem sobreviver na água durante até seis semanas, são importadas de Taiwan, da Holanda e da Tailândia. Taiwan, por sinal, é o maior exportador mundial de orquídeas. O país organiza uma grande feira internacional dessas flores, na qual a maioria das orquídeas pertence à família das Phalaenopsis.
QUANDO O NATURALISTA britânico William Swainson enviou para o seu país uma caixa postada no Rio de Janeiro, em 1818, contendo mudas de uma orquídea, toda a Londres vitoriana se encantou com as flores que elas produziram. A planta, batizada com o nome de Cattleya labiata em homenagem ao botânico que a descobriu, William Cattley, foi cultivada até a floração, sendo o ponto de partida para uma verdadeira mania de caça a espécies ainda mais exóticas. Muitos viveiros ingleses mandaram caçadores de orquídeas a países distantes, em viagens que duraram anos, para coletar plantas em pantanais remotos e em cadeias de montanhas.
Na metade do século 19, o "caçador" checo Benedict Roezl deu a volta ao mundo para coletar mais de 800 espécies de orquídeas. Hoje, cerca de 40 plantas trazem o seu nome. Mais ou menos na mesma época, o botânico inglês John Day devotou toda a sua vida às plantas, criando uma série de mais de 50 álbuns contendo cerca de três mil belíssimos e bem detalhados desenhos e aquarelas. Ainda hoje, a caça à orquídea é um grande negócio. Em 2001, uma equipe de pesquisadores na Amazônia peruana descobriu uma nova espécie (Phragmipedium kovachii), cujas incríveis flores de cor púrpura causaram sensação em toda a comunidade orquidófila, ganhando manchetes até no jornal The New York Times. Logo, os espécimes foram contrabandeados para fora do Peru, e vendidos por dezenas de milhares de dólares por comerciantes inescrupulosos.
Baunilha, uma orquídea comestível
A baunilha é um raro exemplo de uma orquídea utilizada como alimento. As sementes e a polpa encontradas nas bagas da baunilha são usadas para a produção do extrato de baunilha, a maior parte do qual é produzida em Madagáscar. A ilha exportou três milhões de toneladas dessa essência em 2005, quase toda ela destinada à Coca-Cola - essa empresa norte-americana de refrigerantes é a maior consumidora mundial do extrato de baunilha. Na Turquia, um sorvete feito com salep (farinha produzida a partir dos tubérculos de orquídeas selvagens secas) é tão popular que o seu comércio está ameaçando a própria sobrevivência da planta no futuro - são necessárias mil orquídeas para se produzir um único quilo da farinha. A sobremesa é chamada salepi dondurma (sorvete de testículo de raposa).José Manuel Moran
Especialista em projetos inovadores na educação presencial e a distância
Publicado na revista Tecnologia Educacional. Rio de Janeiro, vol. 23, n.126, setembro-outubro 1995, p. 24-26
jmmoran@usp.br
O fascínio pelas tecnologias
Lemos, com freqüência, que as tecnologias de comunicação estão provocando profundas mudanças em todas as dimensões da nossa vida. Elas vêm colaborando, sem dúvida, para modificar o mundo. A máquina a vapor, a eletricidade, o telefone, o carro, o avião, a televisão, o computador, as redes eletrônicas contribuíram para a extraordinária expansão do capitalismo, para o fortalecimento do modelo urbano, para a diminuição das distâncias. Mas, na essência, não são as tecnologias que mudam a sociedade, mas a sua utilização dentro do modo de produção capitalista, que busca o lucro, a expansão, a internacionalização de tudo o que tem valor econômico.
Os mecanismos intrínsecos de expansão do capitalismo apressam a difusão das tecnologias, que podem gerar ou veicular todas as formas de lucro. Por isso há interesse em ampliar o alcance da sua difusão, para poder atingir o maior número possível das pessoas economicamente produtivas, isto é, das que podem consumir.
O capitalismo visa essencialmente o lucro. Tanto as tecnologias -o hardware- como os serviços que elas propiciam -os programas de utilização- crescem pela organização empresarial que está por trás e que as torna viáveis numa economia de escala. Isto é, quanto maior a sua expansão no mercado mundial, mais baratas se tornam e, com isso, mais acessíveis.
As tecnologias viabilizam novas formas produtivas. As redes de comunicação permitem o processo de distribuição "just in time", em tempo real, com baixos estoques. Permitem a produção compartilhada, o groupware, permitem o aparecimento do tele-trabalho -poder estar conectado remotamente à sede da empresa e a outros setores, situados em lugares diferentes. Mas tudo isso são formas de expressão da expansão capitalista na busca de novos mercados, de racionalizar custos, de ganhar mais.
A rede Internet foi concebida para uso militar. Com medo do perigo nuclear, os cientistas criaram uma estruturação de acesso não hierarquizada, para poder sobreviver no caso de uma hecatombe. Ao ser implantada a rede nas universidades, esse modelo não vertical se manteve e com isso propiciou-se a criação de inúmeras formas de comunicação não previstas inicialmente. Todos procuram seus semelhantes, seus interesses. Cada um busca a sua "turma".Ninguém impõe o que você deve acessar na rede. Nela você encontra desde o racismo mais agressivo ou a pornografia mais deslavada até discussões sérias sobre temas científicos inovadores.
A Internet continua sendo uma rede para uso militar. Também continua sendo utilizada para pesquisa no mundo inteiro.Mas agora existe também para todo tipo de negócios e formas de comunicação. A tecnologia basicamente é a mesma, mas hoje está mais acessível, com mais opções, mais mercados, mais pessoas.
É possível criar usos múltiplos e diferenciados para as tecnologias. Nisso está o seu encantamento, o seu poder de sedução. Os produtores pesquisam o que nos interessa e o criam, adaptam e distribuem para aproximá-lo de nós. A sociedade, aos poucos,parte do uso inicial, previsto, para outras utilizações inovadoras ou inesperadas. Podemos fazer coisas diferentes com as mesmas tecnologias. Com a Internet podemos comunicar -nos -enviar e receber mensagens- podemos buscar informações, podemos fazer propaganda, ganhar dinheiro, divertir-nos ou vagar curiosos, como voyeurs, pelo mundo virtual.
Há um novo re-encantamento pelas tecnologias porque participamos de uma interação muito mais intensa entre o real e o virtual.Me comunico realmente -estou conectado efetivamente com milhares de computadores- e ao mesmo tempo, minha comunicação é virtual: eu permaneço aqui, na minha casa ou escritório, navego sem mover-me, trago dados que já estão prontos, converso com pessoas que não conheço e que talvez nunca verei ou encontrarei de novo.
Há um novo re-encantamento, porque estamos numa fase de reorganização em todas as dimensões da sociedade, do econômico ao político; do educacional ao familiar. Percebemos que os valores estão mudando, que o referencial teórico com o qual avaliávamos tudo não consegue dar-nos explicações satisfatórias como antes. A economia é muito mais dinâmica. Há uma ruptura visível entre a riqueza produtiva e a riqueza financeira. Há mudanças na relação entre capital e trabalho. Na política diminui a importância do conceito de nação, e aumenta o de globalização, de mundialização, de inserção em políticas mais amplas. Os partidos políticos tornam-se pouco representativos dessa nova realidade. A sociedade procura através de movimentos sociais, ONGs, novas formas de participação e expressão. E ao mesmo tempo que nos sentimos mais cosmopolitas -porque recebemos influências do mundo inteiro em todos os níveis- procuramos encontrar a nossa identidade no regional, no local e no pessoal; procuramos o nosso espaço diferencial dentro da padronização mundial tanto no nível de país como no individual.
Mudanças que as tecnologias de comunicação favorecem
Cada tecnologia modifica algumas dimensões da nossa inter-relação com o mundo, da percepção da realidade, da interação com o tempo e o espaço. Antigamente o telefone interurbano -por ser caro e demorado- era usado para casos extremos. A nossa expectativa em relação ao interurbano se limitava a casos de urgência, economizando telegraficamente o tempo de conexão.Com o barateamento das chamadas, falar para outro estado ou país vai tornando-se mais habitual, e ao acrescentar o fax ao telefone, podemos enviar e receber também textos e desenhos de forma instantânea e prazerosa.
O telefone celular vem dando-nos uma mobilidade inimaginável alguns anos atrás. Posso ser alcançado,se quiser, ou conectar-me com qualquer lugar sem depender de ter um cabo ou rede física por perto. A miniaturização das tecnologias de comunicação vem permitindo uma grande maleabilidade, mobilidade, personalização (vide walkman, celular, notebook...), que facilitam a individualização dos processos de comunicação, o estar sempre disponível (alcançável), em qualquer lugar e horário. Essas tecnologias portáteis expressam de forma patente a ênfase do capitalismo no individual mais do que no coletivo, a valorização da liberdade de escolha, de eu poder agir, seguindo a minha vontade. Elas vêem de encontro a forças poderosas, instintivas, primitivas dentro de nós, às quais somos extremamente sensíveis e que, por isso, conseguem fácil aceitação social.
A tecnologia de redes eletrônicas modifica profundamente o conceito de tempo e espaço. Posso morar em um lugar isolado e estar sempre ligado aos grandes centros de pesquisa, às grandes bibliotecas, aos colegas de profissão, a inúmeros serviços. Posso fazer boa parte do trabalho sem sair de casa. Posso levar o notebook para a praia e, enquanto descanso, pesquisar, comunicar-me, trabalhar com outras pessoas à distância. São possibilidades reais inimagináveis há pouquíssimos anos e que estabelecem novos elos, situações, serviços, que, dependerão da aceitação de cada um, para efetivamente funcionar.
Para atualizar-me profissionalmente posso acessar cursos à distância via computador, receber materiais escritos e audiovisuais pelo WWW (tela gráfica da Internet, que pode captar e transmitir imagens, sons e textos). Estamos começando a utilizar a videoconferência na rede, que possibilita a várias pessoas, em lugares bem diferentes, ver-se, comunicar-se, trabalhar juntas, trocar informações, aprender e ensinar. Muitas atividades que nos tomavam tempo e implicavam em deslocamentos, filas e outros aborrecimentos, vamos poder resolvê-las através de redes, esteja onde estiver. Até há poucos anos íamos várias vezes por semana ao banco, para depositar, sacar, pagar contas...
Hoje em alguns terminais eletrônicos podemos realizar as mesas tarefas. Estamos começando a fazer as mesmas tarefas sem sair de casa. Também estamos começando a poder fazer o supermercado sem sair de casa, a comprar qualquer objeto via tele-marketing. Isto significa que o que antes justificava muitas das nossas saídas, hoje não é mais necessário.
A partir de agora, só sairemos quando achar-mos conveniente, mas não para fazer coisas externas por obrigação. Sairemos porque queremos, não por imposição das circunstâncias.
Cada inovação tecnológica bem sucedida modifica os padrões de lidar com a realidade anterior, muda o patamar de exigências do uso. Com o aumento do número de câmeras, torna-se normal mostrar, no futebol, vôlei ou basquete, a mesma cena com vários pontos de vista, de vários ângulos diferentes. Quando isso não acontece, quando um gol não é mostrado muitas vezes e de diversos ângulos, sentimo-nos frustrados e cobramos providências. Antes do replay precisávamos ir ao campo para assistir um jogo.
Com a televisão ao vivo, sem videotape, dependíamos da câmera não ter perdido o lance e só podíamos assisti-lo uma vez. Depois o replay foi uma grande inovação, mas era difícil de operar e ficávamos felizes quando havia uma repetição -a mesma- do mesmo lance. Hoje repetir, com muitas câmeras, que nos dão diversos pontos de vista é o normal e foi incorporado a narrativa.Nossas expectativas vão modificando-se com o aperfeiçoamento da tecnologia.
Uma mudança significativa -que vem acentuando-se nos últimos anos - é a necessidade de comunicar-nos através de sons, imagens e textos, integrando mensagens e tecnologias multimídia. O cinema começou como imagem preto e branco. Depois incorporou o som, a imagem colorida, a tela grande, o som estéreo. A televisão passou do preto e branco para o colorido, do mono para o estéreo, da tela curva para a plana, da imagem confusa para a alta definição.Estamos passando dos sistemas analógicos de produção e transmissão para os digitais. O computador está integrando todas as telas antes dispersas, tornando-se, simultaneamente, um instrumento de trabalho, de comunicação e de lazer. A mesma tela serve para ver um programa de televisão, fazer compras, enviar mensagens, participar de uma videoconferência.
A comunicação torna-se mais e mais sensorial, mais e mais multidimensional, mais e mais não linear. As técnicas de apresentação são mais fáceis hoje e mais atraentes do que anos atrás, o que aumentará o padrão de exigência para mostrar qualquer trabalho através de sistemas multimídia. O som não será um acessório, mas uma parte integral da narrativa. O texto na tela aumentará de importância, pela sua maleabilidade, facilidade de correção, de cópia, de deslocamento e de transmissão.
Com o aperfeiçoamento nos próximos anos da fala através do computador e como não necessitaremos de um teclado, dependeremos menos da escrita e mais da voz. Dependeremos menos do inglês para comunicar-nos porque disporemos de programas de tradução simultânea.
Com o aperfeiçoamento da realidade virtual, simularemos todas as situações possíveis, exacerbaremos a nossa relação com os sentidos, com a intuição. Vamos ter motivos de fascinação e de alienação. Podemos comunicar-nos mais ou alienar-nos muito mais facilmente que antes. Se queremos fugir, encontraremos muitas realidades virtuais para fugir, para viver sozinhos. Nossa mente é a melhor tecnologia, infinitamente superior em complexidade ao melhor computador, porque pensa, relaciona, sente, intui e pode surpreender. Por isso o grande re-encantamento temos que fazê-lo conosco, com a nossa mente e corpo, integrando nossos sentidos, emoções e razão. Valorizando o sensorial, o emocional e o lógico. Desenvolvendo atitudes positivas, modos de perceber, sentir e comunicar-nos mais livres, ricos, profundos. Essa atitude re-encantada de viver potencializará ainda mais nossa vida pessoal e comunitária, ao fazer um uso libertador dessas tecnologias maravilhosas e não um uso consumista, de fuga.
As tecnologias de comunicação não mudam necessariamente a relação pedagógica. As Tecnologias tanto servem para reforçar uma visão conservadora, individualista como uma visão progressista. A pessoa autoritária utilizará o computador para reforçar ainda mais o seu controle sobre os outros. Por outro lado, uma mente aberta, interativa, participativa encontrará nas tecnologias ferramentas maravilhosas de ampliar a interação.
As tecnologias de comunicação não substituem o professor, mas modificam algumas das suas funções. A tarefa de passar informações pode ser deixada aos bancos de dados, livros, vídeos, programas em CD. O professor se transforma agora no estimulador da curiosidade do aluno por querer conhecer, por pesquisar, por buscar a informação mais relevante. Num segundo momento, coordena o processo de apresentação dos resultados pelos alunos. Depois, questiona alguns dos dados apresentados, contextualiza os resultados, os adapta à realidade dos alunos, questiona os dados apresentados. Transforma informação em conhecimento e conhecimento em saber, em vida, em sabedoria -o conhecimento com ética.
As tecnologias permitem um novo encantamento na escola, ao abrir suas paredes e possibilitar que alunos conversem e pesquisem com outros alunos da mesma cidade, país ou do exterior, no seu próprio ritmo. O mesmo acontece com os professores. Os trabalhos de pesquisa podem ser compartilhados por outros alunos e divulgados instantaneamente na rede para quem quiser.Alunos e professores encontram inúmeras bibliotecas eletrônicas, revistas on line, com muitos textos, imagens e sons, que facilitam a tarefa de preparar as aulas, fazer trabalhos de pesquisa e ter materiais atraentes para apresentação. O professor pode estar mais próximo do aluno. Pode receber mensagens com dúvidas, pode passar informações complementares para determinados alunos. Pode adaptar a sua aula para o ritmo de cada aluno.Pode procurar ajuda em outros colegas sobre problemas que surgem, novos programas para a sua área de conhecimento. O processo de ensino-aprendizagem pode ganhar assim um dinamismo, inovação e poder de comunicação inusitados.
O re-encantamento, em fim, não reside principalmente nas tecnologias -cada vez mais sedutoras- mas em nós mesmos, na capacidade em tornar-nos pessoas plenas, num mundo em grandes mudanças e que nos solicita a um consumismo devorador e pernicioso. É maravilhoso crescer, evoluir, comunicar-se plenamente com tantas tecnologias de apoio. É frustrante, por outro lado, constatar que muitos só utilizam essas tecnologias nas suas dimensões mais superficiais, alienantes ou autoritárias. O re-encantamento, em grande parte, vai depender de nós.
Bibliografia:
- GARDNER, Howard. As estruturas da mente. Porto Alegre: Editora Artes Médicas, 1994.
- MORAN, José Manuel. Interferências dos Meios de Comunicação no nosso Conhecimento. INTERCOM Revista Brasileira de Comunicação. São Paulo, XVII (2):38-49, julho-dezembro 1994.
- NEGROPONTE, Nicholas. A vida digital. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
- POSTMAN, Neil. Tecnopólio; A rendição da cultura à tecnologia. São Paulo: Nobel, 1994.
O grau de gravidade da obesidade é medido por um cálculo simples: o peso da pessoa em quilogramas (kg) dividido pela altura (em metros) elevada ao quadrado. É o índice de massa corporal (IMC) que classifica os obesos em graus I, II e III. Acima de 40 kg/m2 caracteriza-se a obesidade chamada de "mórbida" – com riscos maiores para doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão, doenças articulares e outros males. Na prática clínica de todos os dias julga-se que, quando a pessoa passa de IMC maior que 40 kg/m2 será difícil voltar ao peso considerado normal. Muitos dos obesos mórbidos parecem ter perdido aquele sistema automático de regulação da fome e do apetite, seguido de saciedade após a refeição. O hábito de comer compulsivamente, beliscar a toda hora, fazer refeições noturnas, assaltos a geladeira, passam a ser vícios difíceis de serem corrigidos e mesmo impossíveis de se eliminar com tratamentos clínicos e restrições nutricionais. A operação, popularmente conhecida como "redução do estômago" é uma opção eficaz nestes casos. No entanto existem restrições para que o obeso mórbido possa se candidatar à cirurgia. É imperativo que exista equilíbrio emocional e ausência de patologia psiquiátrica grave. Ainda é aconselhável que exames psicológicos sejam realizados para preparação da cirurgia. Por outro lado, obesos com menor IMC do que 40 kg/m2 podem se candidatar à cirurgia bariátrica desde que apresentem doenças associadas como diabetes, hipertensão, alterações cardíacas e outras moléstias que são consideradas conseqüências do excesso de peso. O número de cirurgias está aumentando Os pacientes obesos que dispõem de recursos ou que têm plano de seguro saúde poderão cobrir os custos do procedimento, mas o acesso ao ato cirúrgico pode demorar. A estimativa é que os 600 cirurgiões habilitados a realizar esta cirurgia no país estão operando 25.000 pacientes por ano. No entanto é preciso alertar para o fato de que outros tantos cirurgiões, sem treinamento adequado e sem a habilitação necessária -- sem o aval das Sociedades Médicas e Cirúrgicas --, estariam operando os obesos, com risco de complicações pós-operatórias muito sérias. A técnica cirúrgica é eficiente para perder peso Com estômago menor e o intestino reduzido existe a possibilidade de dificuldade de absorção de nutrientes importantes como o ferro, zinco e potássio. Além disso, algumas vitaminas lipo solúveis (que se dissolvem em gordura) como Vitamina A, D e K, podem faltar a prazo médio. Em pacientes obesos que têm moléstia da tireóide e tomam todos os dias o comprimido de tiroxina, é preciso reavaliar a dose diária deste medicamento, pois a tiroxina precisa ser bem dissolvida no estômago para subseqüentemente ser absorvida no intestino delgado. Complicações devidas à técnica cirúrgica podem ocorrer em 7% dos pacientes. Muitas equipes preferem realizar a operação bariátrica por sistema de vídeo no qual os instrumentos são introduzidos por tubos através de 3 a 5 orifícios no abdômen (vídeolaparoscopia). É mais segura, confortável, necessita de menor tempo de internação e tem menor riscos, desde que a equipe tenha excelente treinamento. O risco de voltar a engordar Somente com acompanhamento a longo prazo é que teremos melhor conhecimento porque, mesmo com o sucesso inicial pós-cirúrgico, estas pessoas não conseguem manter o peso adequado. Depressão endógena e compulsão alimentar são, sem dúvida, dois problemas da esfera psiquiátrica que levam o obeso a voltar a engordar. É imprescindível que, no período pós-cirúrgico, toda uma equipe de endocrinologistas, psicólogos, nutricionistas, auxiliem o paciente a se manter no peso ideal Geraldo Medeiros Veja.com - Segunda-feira, 01 de Setembro de 2008 |
Todos nós viemos da África
Evidências arqueológicas reforçam a teoria, baseada em estudos de DNA, de que o Homo sapiens surgiu no leste da África há quase 200 mil anos e migrou para os outros continentes
Revista Planeta, Editora Três, Edição 427
Equipe Planeta
| De alguns milhares a 6 bilhões Recentes descobertas arqueológicas confirmam estudos genéticos segundo os quais toda a nossa raça se origina de um pequeno grupo de humanos que viviam há 80 mil anos no leste da África. Com idade entre 33 mil e 39 mil anos, o crânio Hofmeyr (à esquerda), da África do Sul, é muito parecido com o de seus contemporâneos europeus. |
As modernas análises por DNA já confirmaram: todos nós descendemos de alguns milhares de africanos – entre 2 mil e 6 mil, provavelmente – que viveram há 80 mil anos e partiram de seu lar na África Oriental numa única onda migratória, terminando por povoar todos os outros continentes. Segundo esses estudos, a migração foi rápida – nossos antepassados chegaram à Ásia 60 mil anos atrás, e a Europa foi ocupada há 40 mil anos. Mas, para diversos especialistas, esses dados ainda não eram convincentes. Eles alegavam falhas na datação e nas premissas que originaram os estudos. Sua exigência era simples: evidências arqueológicas que endossassem as descobertas feitas via DNA.
Com o tempo, essas evidências estão surgindo – algumas novas, outras antes esquecidas e agora revisitadas. E o painel que estão compondo revela uma extraordinária aventura: a de uma raça – o Homo sapiens – que, de repente, saiu de sua terra-mãe para conquistar um planeta.
O primeiro indício arqueológico a confirmar a tese dos estudos de DNA foi a pesquisa realizada em 1992 por Paul Mellars, professor da Universidade de Cambridge e uma das maiores autoridades do mundo em rotas de migração utilizadas pelo homem primitivo, a partir de um ovo de avestruz de cerca de 35 mil anos encontrado na Índia. As gravações inscritas na casca do ovo eram muito semelhantes às de uma peça ocre de aproximadamente 75 mil anos de idade descoberta na África do Sul, a dez mil quilômetros de distância. A semelhança de outros objetos da mesma época encontrados na Índia e no Sri Lanka – pontas de flechas, pás de pedra primitivas e pequenas contas feitas de carapaça de avestruz – com os produzidos por africanos 40 mil anos antes reforçaram a idéia de Mellars de que havia ligação entre as duas populações.
DURANTE UM BOM tempo essa linha de pesquisa não foi aprofundada, talvez porque a tese de Mellars tenha sido divulgada apenas em publicações arqueológicas indianas, cuja importância era desconsiderada no Ocidente. Quinze anos depois, porém, surgiram novidades a partir da pesquisa feita por uma equipe internacional liderada pelo paleontólogo Alan Morris, da Universidade da Cidade do Cabo, a respeito do crânio Hofmeyr.
Considerado antes uma relíquia sem grande valor, esse crânio humano havia sido encontrado em 1952 perto da cidade sul-africana de Hofmeyr, durante as obras para a construção de uma represa. Como nenhuma matéria orgânica restara na peça, ela não havia sido submetida a uma datação por carbono-14 – e, assim, tornara- se uma simples curiosidade no escritório de Morris, onde ser via como peso para papéis.
Um antigo colega de Morris, Frederick Grine, da Universidade Estadual de Nova York, mudou esse estado de coisas. Grine sugeriu a Morris que se fizesse a datação dos grãos de areia alojados na cavidade que havia abrigado o cérebro, e a idéia deu certo: especialistas atribuíram à relíquia uma idade entre 33 mil e 39 mil anos. Isso colocava o crânio dentro de um período – entre 75 mil e 20 mil anos atrás – que originou o menor número de descobertas de restos humanos na África, enquanto homens anatomicamente modernos despontavam na Ásia e na Europa.
| Expansão rápida A disseminação do Homo sapiens pela Terra se deu a partir de uma única onda migratória, que em apenas 10 mil anos levou a raça até a Austrália. Depois, a migração avançou para o norte. | ||
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O passo seguinte foi dado pela paleoantropóloga Katerina Harvati, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária em Leipzig, na Alemanha. Ela submeteu o crânio a medições tridimensionais a fim de compará- lo com amostras de ossos modernos europeus, asiáticos e bosquímanos sul-africanos, além de crânios de humanos da Idade da Pedra e do homem de Neandertal. Resultado: o crânio de Hofmeyr era muito parecido com os dos primeiros humanos modernos europeus, os mais distantes em termos geográficos.
Essa semelhança indica que, há uns 35 mil anos, os humanos modernos sul-africanos e europeus partilhavam um ancestral comum muito recente, provavelmente membro de um povo da África Oriental que migrara entre 50 mil e 60 mil anos atrás.
As semelhanças nas gravações da pedra sul-africana (esquerda), feitas há 75 mil anos, e as da casca de ovo indiana (direita), de 35 mil anos atrás, indicam que os responsáveis por elas tinham as mesmas origens. |
Uma das rotas desses viajantes levou ao sul, mas outra seguiu na direção nordeste, envolvendo inclusive uma travessia de mar – no Estreito de Bab-al-Mandeb, que separa o Iêmen, no sul da Península Arábica, de Djibuti, no nordeste da África. Depois da travessia, os migrantes seguiram a linha do litoral, chegando à Índia e rumando depois para a Indonésia e a Austrália, onde chegaram há cerca de 50 mil anos. Essa teoria é reforçada por esqueletos com idade entre 45 mil e 50 mil anos encontrados no sul da Austrália e na ilha de Bornéu.
O estímulo para a criatividade Quem tinha mais chances de sobreviver nessas condições diferenciadas? Aqueles com maior capacidade cerebral, que podiam criar novas idéias, ferramentas, armas, invenções e artes. Esse estímulo forçado à criatividade dado pela natureza foi um fatorchave na ascensão do Homo sapiens a rei da Terra. |
| Durante a última Era do Gelo, os antigos europeus tiveram tempo e recursos para desenvolver suas habilidades artísticas, como demonstram as pinturas rupestres encontradas em cavernas do continente. |
CURIOSAMENTE, NOSSOS antepassados não aproveitaram o vale do rio Nilo para chegar à costa do Mediterrâneo. Em vez disso, conforme estudos de DNA publicados em 2007 na revista Science, eles a atingiram entre 40 mil e 50 mil anos atrás, após passar pela Península Arábica, pelo Oriente Médio (onde parte deles seguiu rumo norte, dividindo-se entre a Europa Oriental e a China) e a partir daí na direção oeste, chegando à Europa pela atual Turquia e ao litoral norte da África através da Península do Sinai.
Todas essas rotas migratórias colocaram nossos antepassados em contato com as mais diversas condições ambientais – diferenças geográficas, climáticas, de fauna e de flora, por exemplo – e, em particular, com outras espécies humanas, estabelecidas naquelas regiões havia milhares de anos. Eles superaram todos os obstáculos e adaptaram-se a esses ecossistemas variados.
Descobertas recentes na Rússia e na Ucrânia, por exemplo, mostram que o Homo sapiens foi mais capaz de enfrentar climas rigorosos do que o homem de Neandertal. Os pesquisadores encontraram ali o mais antigo sinal de arte decorativa – um rosto semi-acabado gravado na presa de marfim de um mamute, datado em 45 mil anos. Os vestígios do homem de Neandertal na área vão até 115 mil anos atrás, com o início da Era do Gelo; depois disso, esse povo partiu para o sul e nunca mais voltou. Resistindo ao clima severo daquelas terras, o Homo sapiens já mostrava que vinha para ficar.
A pergunta que surge daí é inevitável: o que tornou nossos ancestrais aptos a – de repente, em termos arqueológicos – espalhar-se pelos continentes e conquistar o planeta? Só para relembrar, o crânio mais antigo de um Homo sapiens, encontrado em Omo (Etiópia), tem cerca de 195 mil anos de idade. O que, depois de uns 115 mil anos, lhes permitiu tomar a África e, em seguida, o mundo?
É bem provável que uma grande mudança tenha ocorrido então. Diversos pesquisadores falam de uma “explosão de criatividade”, um aumento na capacidade de processamento cerebral suficiente para permitir ao Homo sapiens a criação da primeira linguagem complexa, de novas estruturas sociais, de maneiras mais eficientes de produzir ferramentas, de padrões diferentes de arte – enfim, dos elementos que compõem uma cultura mais avançada. Arqueólogos também falam de indícios de que objetos eram transportados por longas distâncias, o que leva à suspeita de que já havia alguma forma rudimentar de economia, na qual itens como adornos, alimentos e ferramentas eram trocados.
Outro fator indicativo de que alguma coisa extraordinária aconteceu no cérebro do Homo sapiens foi a descoberta de esqueletos de homens anatomicamente modernos nas cavernas de Skhul e Qafzeh, em Israel, datados entre 90 mil e 100 mil anos. Nos dois locais foram encontrados itens com ocre e adornos, uma evidência de que ali se faziam ritos funerários com oferendas para os mortos. Tais características de uma consciência mais elevada, porém, não foram suficientes para fazer esses ancestrais se fixarem ali de vez: os restos de homens de Neandertal encontrados em camadas do solo mais antigas e mais recentes mostram que aquela passagem do Homo sapiens pelo Oriente Próximo foi efêmera.
A migração seguinte, entretanto, já não abriu mais espaços para os rivais. Em alguns milhares de anos, os homens de Neandertal – que ocuparam a Europa por pelo menos 300 mil anos – foram totalmente substituídos por nossos ancestrais. Em todos os outros lugares onde houve competição, a superioridade cerebral do Homo sapiens prevaleceu. O passo seguinte, e inevitável, veio na medida da ambição da raça: o próprio planeta.
Primavera
A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.
Saiba tudo sobre a vida e a obra de Cecília Meireles visitando "Biografias".
Libélula
Instituto Ecológico Aqualung
Matéria publicada no Informativo n° 15 setembro/outubro de 1997
Texto de Marcelo Szpilman*
Poucos se dão conta de que também existem insetos ameaçados de extinção. A pequena divulgação sobre o assunto e a falta de informação de que os mesmos são tão importantes no equilíbrio ambiental quanto os outros animais, aliados à pouca simpatia que exercem nas pessoas em geral, faz com que poucos saibam da existência desses pequenos seres em perigo, como as borboletas, com 28 espécies ameaçadas, e as libélulas, que serão apresentadas nesta matéria, com cinco espécies ameaçadas e uma provavelmente extinta. Existem no Brasil mais de 1.200 das 5.000 espécies de libélula que povoam o mundo inteiro. Apesar das várias denominações vulgares, como lavadeira, cavalinho do diabo, pito, e canzil, seu nome mais comum, libélula, pode ter-se originado dos termos latinos, libellulus, o diminutivo de livro (liber), devido à semelhança de suas asas com um livro aberto, ou libella, que significa balança, e aí o movimento de suas asas, que oscilam levemente durante o vôo, daria respaldo a esta interpretação. Graças ao fantástico aparelhamento biológico que possui, uma libélula consegue planar, o que é impossível para a maioria dos insetos alados. Enquanto uma abelha vibra suas asas 4 vezes por segundo e muitos mosquitos imprimem até 8 batidas, a libélula bate suas asas 50 vezes por segundo. De acordo com a espécies, o tempo de vôo pode variar de dias, como ocorre com as espécies migratórias que possuem asas mais largas e conseguem planar nas correntes aéreas, a alguns minutos por dia. Em média, elas se mantêm voando por 5 a 6 horas diariamente. O absoluto controle de vôo da "demoiselle" (senhorita, como a libélula é chamada pelos franceses), inspirou o brasileiro Alberto Santos-Dumont na criação de seu modelo mais bem sucedido: o Demoiselle. Irrequieta, voando incessantemente, planando, dando rasantes, subindo ou pousando como um helicóptero, a libélula parece ter sempre muita pressa. E motivos não faltam para isso. Toda libélula está sempre vivendo o ponto culminante de sua vida e não tem tempo a perder. Deve procurar parceiros e acasalar em um prazo máximo de dois meses __ tempo entre sua última metamorfose, quando de larva se transformou em libélula, e sua morte __, que corresponde, em algumas espécies, a menos de 10% de seu tempo total de vida. Será preciso entender rapidamente as regras do jogo no novo ambiente, aprendendo a evitar seus predadores e caçando suas presas. Aparelhada com o maior olho proporcional do reino animal, a libélula usa seu sofisticado aparelho visual como um radar. Posicionando-se sempre contra a luz solar, é capaz de detectar movimentos imperceptíveis aos nossos olhos. Em centésimos de segundo, ela identifica se é uma presa, um predador, um rival ou uma possível parceira. Aos inimigos, a lei-do-mais-forte. Aos machos rivais, um violento ataque servirá para marcar presença no território. Caso seja uma fêmea, será o início de um complicado malabarismo, essencial para a preservação da espécie. A cor definitiva do corpo e da asa das libélulas demora alguns dias para se fixar, seguindo diversos matizes de azul, amarelo e vermelho. Em algumas espécies a coloração predomina nas asas, enquanto outras possuem o abdômen colorido e asas transparentes. As cores chamativas e dois pares de asas que não se dobram as tornam incapazes de esconder-se na vegetação, representando uma desvantagem competitiva. Os olhos com visão panorâmica e a habilidade de voar verticalmente, contrabalançam esta equação evolutiva, que tem sido favorável às libélulas.
Caçador e caça
Predadora voraz em seu ambiente, a libélula é capaz de comer 14% de seu peso se alimentando apenas de outros insetos voadores __ abelhas, moscas, besouros, vespas, outras libélulas menores, pernilongos e até o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue __ em um único dia de sua curta existência fora da água. Vivendo apenas de um a dois meses com suas asas, depois de ter passado até cinco anos no ambiente aquático, ela tem pouco tempo para encontrar parceiros e procriar, antes que um predador a encontre primeiro. Recentes pesquisas demonstraram que um pequeno besouro realiza por dia cerca de 150 vôos, conseguindo um índice de sucesso nas caçadas de 43% e comendo 11% do seu peso. Já a libélula, mesmo com pouco tempo de "brevê", realiza duas vezes mais vôos e tem sucesso em 51% de suas investidas. Enquanto vive na água, a libélula tem de fugir dos sapos, peixes e pássaros. Com asas, ela terá outros inimigos: aranhas, louva-deuses e outros pássaros.
Se tem libélula, a água está limpa
Quem tiver dúvidas quanto à qualidade da água de um rio ou lago pode fazer o "teste da libélula", que consiste na simples observação se há libélulas na área. Todo rio ou lago com águas limpas tem libélula. No entanto, a menor alteração físico-química da água ou do ar já será suficiente para expulsá-las, além de impedir que dos ovos saiam novas larvas. Deste modo, a presença do inseto funciona como um excelente bioindicador da qualidade do meio ambiente. A grande ameaça à vida das libélulas é a poluição ambiental. Na água, a poluição provoca mudanças drásticas em suas características físicas, como os sedimentos em suspensão, e químicas, tais como alteração do PH, da condutividade e do nível de oxigênio dissolvido na água. No ar, ocorrem processos semelhantes, incluíndo as mudanças climáticas.
Duas metades de um só coração
O tempo de procriação pode variar de alguns minutos em pleno vôo até várias horas de um acasalamento pousado. O que não muda é a posição insólita em forma de coração, formado pelo corpo retorcido do macho e da fêmea. Quando o macho está na presença da fêmea, ele precisa encostar seu pênis, localizado no segundo segmento de seu abdômen, no nono (e penúltimo) segmento, onde são produzidos os espermatozóides. Depois de transportar seu próprio esperma até o pênis, o macho segura a fêmea pela cabeça com uma pinça localizada na extremidade de seu corpo. A fêmea, então, faz também um contorcionismo para que seu orgão genital, localizado no penúltimo segmento, encontre o pênis do macho, formando o coração. Depois da fecundação, os ovos são liberados dentro da água ou em alguma planta submersa.
A larva se tranforma em avião
Duas a três semanas depois de postos os ovos, surgem as larvas das libélulas. Começa então um longo ciclo de vida aquática, que, em algumas espécies, pode durar até cinco anos. Em sua existência submersa, a larva se alimentará de microcrustáceos, filhotes de peixes e outras larvas __ ela atua como ápice de uma importante cadeia alimentar dos ambientes aquáticos dos rios e lagos __ e passará por até 15 sucessivas metamorfoses até se transformar em uma naiade, que já se assemelha ao inseto adulto porém se movimenta no meio aquático através de jatos de água que saem pelo reto, como um sifão. Em um dado momento, atendendo aos chamados de um relógio biológico, cujo mecanismo permanece inexplicado, a naiade faz a transição do meio aquático para o terrestre onde fará sua última metamorfose. A escalada do trampolim para o novo mundo é feita geralmente à noite, para escapar dos predadores. Subindo pela haste de alguma planta, a larva para de se alimentar e se mantém várias horas imóvel se preparando para a mudança. A libélula rompe seu último exoesqueleto pelo dorso, liberando primeiro a cabeça e o tórax e depois o abdômen (o processo leva de 30 a 40 minutos). Suas asas, úmidas, precisarão de duas a três horas para se solidificarem em contato com o ar, quando a libélula estará, então, aparelhada e pronta para decolar.
* Marcelo Szpilman é Biólogo Marinho, Diretor do Instituto Ecológico Aqualung, Editor do Informativo do Instituto e autor dos livros Guia Aqualung de Peixes e Seres Marinhos Perigosos.
